sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Alita: Anjo de Combate" em análise

Alita: Anjo de Combate é um filme que James Cameron ambicionava lançar para o grande ecrã há cerca de década e meia, estando durante esse tempo em development hell por falta de tecnologia especifica e apropriada para fazer um filme deste género. Este, por falta de tempo, abdicou da cadeira de realizador, dando lugar a Robert Rodriguez, o que levou fãs a ficar desconfiados, visto que Rodriguez e Cameron têm maneiras de contar uma história bastante diferentes, e o último, pelas histórias que já nos mostrou, era a pessoa mais adequada para o trabalho. Outro grande problema seria o facto de Alita ser uma adaptação de um manga, algo que os estúdios americanos não são bem conhecidos por conseguir adaptar. Será Alita mais uma tentativa fracassada de tentar adaptar algo oriental para o seu cinema?


Tendo em conta que já conhecia o manga, posso dizer que o filme é uma adaptação bastante fiel, o que já seria de esperar da escrita de Cameron, pois este ama o material desde a primeira vez que lhe deitou as mãos, fazendo mais que sentido ele querer fazer justiça ao mesmo. Rodriguez, alguém que costuma fazer filmes onde o estilo sobrepõe-se à substância, conseguiu trazer um mundo novo visualmente incrível para o ecrã, captando a essência do género cyberpunk e do manga na perfeição, e a sua realização foi melhor do que antecipada. Lamento é que, pela maneira que as coisas são apresentadas – com vários cortes de diálogos ou cenas e vários desfechos de imagem inesperados – faça parecer que o filme ainda tinha muito para contar, mas foi cortado de maneira a encurtar a duração do filme, algo pouco compreensível pois assim fazem o filme parecer um world builder que está dependente de uma sequela para se poder endurecer, até mesmo pela maneira como este termina, que por si já é uma maneira bastante questionável. 


Mas isso não impede de forma alguma a apresentação fantástica em 3D que este filme tem para dar, pois apenas pela estética e visual vale a pena vê-lo no cinema invés do conforto do sofá! A maior parte dos efeitos especiais, seja nas personagens ou no mundo criado, sempre acompanhados por uma épica e bem conseguida banda sonora de Junkie XL (ou Tom Holkenborg, como consta nos créditos), e, acima de tudo, a sequência que se passa na pista de Motorball, estão bem conseguidos, o que já era e esperar da WETA, já conhecida pelo seu trabalho nas trilogias do Hobbit, Senhor dos Anéis e as prequelas de Planeta dos Macacos, e da paciência de um visionário como Cameron.


Obviamente, haverá pessoas que vão criticar o facto de a Alita ter olhos gigantes, mas isso é apenas uma maneira de a diferenciar do mundo que a rodeia, que ela desconhece, e a maneira como ela o vê. Rosa Salazar faz um bom trabalho desempenhando-a, e poucos minutos dentro do filme uma pessoa esquece-se totalmente de tal detalhe e vê-a como uma personagem forte e independente, que ainda cresce no decorrer da narrativa. O filme inclui ainda um elenco secundário bastante bom, mas muitos ficam aparte da história a maior parte do tempo dando-lhes pouco espaço para serem desenvolvidos adequadamente – culpando, tal como mencionei acima, os vários cortes notáveis na apresentação da história para cortar na duração. O vilão é também outro aspeto que fica um aquém das expectativas, pois não se percebe muito bem de onde ele vem e nem os motivos de o ser, algo que parece que decidiram deixar como resposta para futuros filmes, algo completamente desnecessário pois há sempre possibilidade de isso não chegar a acontecer – mas, pelo andar da carroça, penso que seja possível, ou pelo menos rezo que seja. 


Há pouco tempo ainda se achava que seria impossível para estúdios americanos conseguirem adaptar algo baseado em videojogos ou mangas/animes. Mas recentemente, e até certo ponto, filmes como Tomb Raider, Rampage e Ghost In The Shell conseguiram provar o contrário, que basta serem competentes o suficiente para o conseguirem fazer. Alita: Anjo de Combate, um projeto querido para muitos que trabalharam nele, é mais um a acrescentar a essa lista, sendo, possivelmente, até o melhor deles. Se não fosse pela mentalidade de ganhar lucro com sequelas e pelo aparente encurtar da narrativa deixando muitas coisas ambíguas, o filme teria todo o mérito merecido. Mesmo assim, tendo em conta o longo tempo em que esteve em produção, é um filme que vale a pena ver, seja para aqueles que já conhecem a história original ou para quem nunca ouviu falar. 
7/10 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Vice" em análise

Para começar, tenho de dizer que não sou fã de Adam McKay, o realizador de Vice. Em grande parte porque detestei A Queda de Wall Street, o seu último filme, do início ao fim. Então, naturalmente fui ver este novo filme sem expectativas, apenas a desejar (quase a rezar!) gostar mais do que do outro. 

Vice acompanha Dick Cheney e o seu percurso de vida até se tornar vice-presidente dos Estados Unidos da América e, consequentemente, um dos homens mais poderosos do mundo. 


Este é um filme que certamente já deu que falar, em grande parte devido às transformações que os protagonistas sofreram, especialmente Christian Bale, que volta a estar irreconhecível e com mais uns quilinhos em cima. Para além deste pormenor, Vice também se tem destacado bastante nesta época de prémios. Por isso, porque não ir vê-lo, mesmo quando não apanhamos nada de política, não é verdade? 

Então, o filme começa logo com Cheney em ação, mas ao longo da trama temos recuos no tempo que nos dão uma percepção da evolução da sua personagem. Também somos introduzidos à sua família e amigos, o que nos ajuda a conhecê-lo melhor. 


Algo que se destaca logo é a presença de um narrador, que ao início parece apenas ter conhecimento da história, mas com o passar do tempo começamos a ter pistas de que este se vai cruzar com o próprio plot e vai deixar de ser apenas um narrador para passar a ser um elemento essencial da narrativa. O curioso é que mesmo com as pistas, dificilmente percebemos qual vai ser a conclusão. 

Claro está, este filme tem uma enorme quantidade de humor, que no geral funciona bastante bem e entrega ao público aquilo que queremos, mesmo parecendo arriscado. Se, por acaso, a meio do filme começarem a achar que parece que já estão a assistir a uma cena final… Bem, talvez seja mesmo essa a ideia! 


O filme tem grandes prestações por parte dos atores, ainda que Christian Bale seja mesmo aquele que se realça mais. No entanto, os atores secundários - Amy Adams, Steve Carell e Sam Rockwell - também são fundamentais no filme e não estão presentes apenas para mostrar o excelente trabalho do departamento de maquilhagem. 

No final, Vice é um filme que nos apresenta uma espécie de biografia num tom cómico. É divertido e, felizmente, gostei muito mais do que d’A Queda de Wall Street (ainda que sejam notáveis algumas semelhanças derivadas do estilo do realizador). É o filme ideal para a época de prémios em que estamos, ainda que provavelmente se saia pouco vitorioso.
7/10